Um laudo de termografia precisa permitir que outra pessoa entenda, sem ter estado em campo, o que foi inspecionado, em que condições, o que foi encontrado, quão grave é, o que fazer e até quando. Para isso, ele deve trazer a identificação do ativo, as condições da medição (carga, emissividade, temperatura refletida, distância e ambiente), a imagem térmica e a visual, as temperaturas e o ΔT, a classificação de severidade, a recomendação com prazo, os dados de rastreabilidade e a assinatura de um profissional qualificado.
Parece muita coisa, mas cada item tem um motivo. Sem eles, o laudo vira um álbum de imagens coloridas que ninguém consegue usar para decidir uma parada de manutenção. Abaixo, você vê cada item em detalhe, um checklist pronto e os erros que mais derrubam a confiança num relatório.
Laudo, relatório ou parecer: o que muda na prática
No dia a dia, as palavras se misturam. Em geral, relatório de inspeção é o documento que lista o que foi visto na rota. Laudo é o documento técnico que traz diagnóstico, classificação e recomendação, assinado por um profissional que responde por ele. Muitos programas juntam os dois num só arquivo: uma visão geral da rota e uma ficha por anomalia.
O que importa não é o nome, e sim o conteúdo. Se o documento vai servir para priorizar manutenção, comprovar uma inspeção para um cliente ou acompanhar a evolução de um equipamento, ele precisa dos elementos a seguir.
Os itens essenciais de um laudo de termografia
1. Identificação do cliente, do local e do ativo
Comece pelo básico: empresa, unidade, área, data e hora da inspeção. Depois, identifique cada ativo de forma que a equipe de manutenção encontre o ponto sem precisar ligar para o termografista:
- tag ou código do equipamento no sistema de manutenção;
- descrição (por exemplo, "painel CCM-02, gaveta 5, disjuntor do motor da bomba 3");
- localização física (prédio, sala, coluna);
- componente exato da anomalia (conexão da fase B no borne de entrada, por exemplo).
2. Condições da medição
É aqui que a maioria dos laudos falha. A temperatura que a câmera mostra depende dos parâmetros informados e das condições do momento. Registre:
- Carga: corrente medida ou percentual da carga nominal no momento da imagem. Um ponto quente a 30% de carga pode ser muito mais grave a plena carga. Muitas referências recomendam inspecionar com pelo menos 40% da carga nominal; confira o que o seu procedimento adota.
- Emissividade: o valor usado e como foi definido (tabela, fita de emissividade conhecida, comparação com contato).
- Temperatura refletida: o valor e o método de medição, como o do refletor de papel-alumínio amassado.
- Distância até o alvo e, se houver, lente ou janela de inspeção usada (com a transmissividade informada).
- Ambiente: temperatura do ar, umidade relativa, vento e sol em inspeções externas.
Se você quer entender por que emissividade e temperatura refletida mudam tanto o resultado, leia o artigo sobre emissividade na termografia.
3. Imagem térmica e imagem visual
Cada anomalia deve ter a imagem térmica e uma foto visual do mesmo enquadramento. A foto visual mostra ao eletricista ou mecânico exatamente onde está o problema. Cuide também da imagem térmica:
- foco nítido, já que foco errado altera a temperatura medida;
- escala de temperatura (nível e amplitude) ajustada para destacar a anomalia, e não automática a ponto de esconder ou exagerar diferenças;
- paleta de cores consistente entre imagens do mesmo relatório;
- ferramentas de medição visíveis: ponto, área ou linha sobre o componente quente e sobre a referência.
4. Temperaturas e ΔT
Informe a temperatura máxima do ponto anômalo, a temperatura da referência e o ΔT, a diferença entre elas. Diga qual foi a referência: um componente semelhante sob a mesma carga (por exemplo, a mesma conexão nas outras duas fases) ou a temperatura ambiente. As duas comparações levam a critérios diferentes.
5. Classificação de severidade
A severidade traduz o ΔT em prioridade de ação. O laudo deve dizer qual critério usou. Uma referência muito difundida para equipamentos elétricos é a tabela de ΔT da NETA:
| ΔT entre componentes semelhantes | ΔT acima do ambiente | Ação sugerida |
|---|---|---|
| 1 °C a 3 °C | 1 °C a 10 °C | Possível deficiência: investigar |
| 4 °C a 15 °C | 11 °C a 20 °C | Provável deficiência: reparar quando possível |
| Não se aplica | 21 °C a 40 °C | Monitorar até a correção |
| Acima de 15 °C | Acima de 40 °C | Grande discrepância: reparar imediatamente |
Use a tabela como referência, não como regra cega, e consulte a versão vigente. Componentes críticos, cargas baixas no momento da medição ou equipamentos com limite de temperatura conhecido podem justificar uma classificação mais severa. Mais critérios para a parte elétrica estão no guia de termografia em painéis elétricos.
6. Recomendação e prazo
Classificar sem recomendar deixa o trabalho pela metade. Para cada anomalia, escreva uma ação clara e um prazo coerente com a severidade:
- "Reapertar e limpar a conexão da fase B no borne de entrada; verificar o terminal" é útil.
- "Verificar ponto quente" não é.
Indique também se é preciso reinspecionar depois do reparo. A nova imagem fecha o ciclo e prova que a correção funcionou.
7. Rastreabilidade
Rastreabilidade é poder voltar ao dado original e refazer o caminho. Registre:
- modelo e número de série da câmera, e a data da última calibração;
- nome dos arquivos de imagem originais, guardados no formato radiométrico (que preserva a temperatura de cada pixel);
- versão do procedimento e normas usadas, como a ABNT NBR 15572;
- rota, data e hora de cada imagem.
Com a imagem radiométrica guardada, é possível corrigir emissividade ou temperatura refletida depois e comparar a evolução do mesmo ponto ao longo dos meses.
8. Assinatura e qualificação do profissional
O laudo deve trazer o nome do termografista, a qualificação (nível e entidade certificadora, número do certificado e validade) e a assinatura. A classificação de severidade e a recomendação exigem interpretação: o mercado espera que isso venha de um profissional com qualificação compatível, em geral Nível 2 ou superior. Entenda o papel de cada nível no guia de níveis de certificação em termografia.

Checklist do laudo de termografia
| Item | O que registrar | Por que importa |
|---|---|---|
| Identificação | Cliente, unidade, tag, componente, data e hora | A manutenção encontra o ponto sem dúvida |
| Carga | Corrente ou percentual da nominal | Define se o ΔT está subestimado |
| Emissividade | Valor e método | Erro de emissividade distorce a temperatura |
| Temperatura refletida | Valor e método | Evita confundir reflexo com aquecimento |
| Distância e ambiente | Distância, ar, umidade, vento, sol | Explica limites da medição |
| Imagens | Térmica e visual do mesmo ponto | Mostra onde está o problema |
| ΔT | Ponto quente, referência e diferença | Base da severidade |
| Severidade | Prioridade e critério usado | Permite priorizar reparos |
| Recomendação | Ação concreta e prazo | Transforma achado em ordem de serviço |
| Rastreabilidade | Câmera, calibração, arquivos, normas | Permite auditar e comparar |
| Assinatura | Nome, qualificação, certificado | Dá responsabilidade técnica ao documento |
Erros comuns que derrubam a confiança no laudo
- Medir com carga baixa e não dizer. O ponto parece leve, a severidade sai baixa e o problema aparece semanas depois, a plena carga.
- Deixar a emissividade padrão em tudo. Metal nu, terminal oxidado e isolante pintado têm emissividades muito diferentes.
- Medir através do acrílico ou do vidro. Esses materiais bloqueiam o infravermelho de ondas longas: a câmera mede a placa, não o componente.
- Confundir reflexo com aquecimento. Superfícies metálicas brilhantes refletem o corpo do termografista, lâmpadas e o sol.
- Escala automática enganosa. A paleta "pinta" de vermelho um ΔT de 1 °C e assusta o cliente sem motivo.
- Sem foto visual. A equipe abre o painel e não sabe qual conexão procurar.
- Recomendação genérica. "Verificar" não vira ordem de serviço.
- Sem critério declarado. Duas inspeções classificam o mesmo ΔT de formas diferentes e ninguém sabe por quê.
- Jogar fora as imagens originais. Sem o arquivo radiométrico, não há como revisar a análise.
Como o software ajuda: FLIR Thermal Studio
Montar laudo no editor de texto, colando imagem por imagem, consome tempo e abre espaço para erro. Softwares de análise e relatório, como o FLIR Thermal Studio, trabalham direto com as imagens radiométricas das câmeras FLIR. Na prática, eles permitem:
- ajustar emissividade, temperatura refletida e distância depois da captura, imagem por imagem ou em lote;
- incluir pontos, áreas e linhas de medição e calcular o ΔT entre eles;
- ajustar escala e paleta de forma padronizada em todo o relatório;
- usar modelos de relatório com os campos do seu procedimento, incluindo imagem térmica e visual lado a lado;
- gerar o documento final com padrão visual da empresa.
O software acelera e padroniza, mas não substitui o julgamento do termografista. Quem decide a referência do ΔT, a severidade e a recomendação é o profissional. Câmeras com maior resolução e recursos de medição, como as da linha de câmeras termográficas avançadas, ajudam a capturar dados mais completos para o laudo.

Depois do laudo: acompanhar até o reparo
O laudo não termina quando é entregue. Os melhores programas de inspeção acompanham cada anomalia até o fechamento:
- cada achado vira uma ordem de serviço com o prazo do laudo;
- a equipe registra o que encontrou ao abrir o equipamento (conexão frouxa, terminal danificado, rolamento sem lubrificação);
- o termografista reinspeciona e anexa a nova imagem;
- o histórico do ponto entra na próxima rota, para comparar a evolução.
Esse retorno de campo também melhora o próprio termografista: ele aprende quais padrões térmicos correspondem a quais defeitos reais.
Perguntas frequentes
Quem pode assinar um laudo de termografia?
Um termografista qualificado, com nível compatível com a interpretação exigida. Classificar severidade e recomendar ações costuma ficar com profissionais Nível 2 ou superior, conforme a ISO 18436-7 e as diretrizes da ASNT. Contratos e normas internas do cliente podem trazer exigências adicionais.
Laudo de termografia precisa citar norma?
É uma boa prática. Citar o procedimento seguido, como a ABNT NBR 15572, e o critério de severidade usado dá base técnica ao documento. Cite a edição e consulte a versão vigente. O guia das normas de termografia resume cada referência.
Por quanto tempo guardar as imagens e os laudos?
Não existe um prazo único para todos os casos. O recomendado é guardar pelo menos até a próxima inspeção do mesmo ponto e, idealmente, manter o histórico para comparar a evolução. Contratos, seguradoras e políticas internas podem definir prazos específicos.
O laudo pode ser feito só com imagens qualitativas?
Uma inspeção qualitativa, que compara padrões térmicos sem medir temperaturas absolutas, pode apontar anomalias. Mas para classificar severidade com ΔT e definir prazos, o laudo precisa de medições quantitativas com parâmetros corretos.
Aprenda a fazer laudos que se sustentam
Um bom laudo é consequência de uma boa medição e de uma interpretação segura. Os cursos oficiais do ITC ensinam exatamente isso: do ajuste de emissividade à classificação de severidade. O curso de termografia Nível 1 em Curitiba tem 32 horas, em 4 dias, e não exige experiência anterior. A certificação ITC vale 5 anos.
A Alpes Automação já realizou turmas oficiais do ITC em Curitiba em junho de 2025, a primeira no Paraná, e de 9 a 12 de junho de 2026. Ainda não há próxima turma marcada. Inscreva-se na lista para ser avisado primeiro quando abrirmos a próxima turma.












